Sexta-feira, Abril 03, 2009

O CARA - E AS TANTAS CARAS DO NOSSO COMPLEXO VIRA-LATA.
Em entrevista coletiva, junto a Gordon Brown, primeiro-ministro britânico, Lula põe a culpa da crise em banqueiros de olhos azuis. "Populismo racista", acusa a oposição. "Figura de linguagem", gritam os lulistas. Se a figura era de linguagem, e os olhos azuis eram metonímia do primeiro mundo, dias depois, na figura do presidente estadunidense, o mulato Barack Obama, Lula recebe elogios do maior líder do primeiro mundo: "É o cara". A blogosfera lulista se compraz com o elogio yankee. Os oposicionistas comentam sobre uma suposta ironia no tom de Barack. O mundo entra em crise, mas no Brasil só se fala, ora com a inveja oposicionista, ora com o deslumbre arrivista dos situacionistas, sobre as palavras elogiosas do presidente Obama, e a foto junto da rainha Elizabeth II. Vira-lata gosta de cafuné!
Isso, meus caros, é o complexo de vira-latas em todas possíveis versões: ufanista, persecutória e invejosa.
Sábado, Março 07, 2009
O que sempre me encantou no romance Menino de engenho (1932) de José Lins do Rêgo foi a bonita relação entre avô, Zé Paulino e o neto, Carlos Melo. Tal relação parece mexer na imaginação de escritores como José Lins do Rêgo (e tantos outros), pois comparar o mundo do avô com o do neto é uma maneira de sublinhar o choque de gerações, as guinadas na história de uma família e, possivelmente, descrever sua decadência. Zé Paulino, o senhor de engenho, dono da Fazenda Santa Rosa, é um gigante aos olhos do neto Carlos Melo. O senhor de engenho manda e desmanda em tudo e em todos, mas não deixa de ser um fazendeiro rude. Zé Paulino decide enviar seu neto para escola. Carlos Melo acaba se tornando bacharel em Direito, formado pela prestigiosa Faculdade de Direito do Recife. Volta para o engenho, e a despeito de toda sua instrução e refinamento, mostra-se um fraco. Não tem a fibra moral, a coragem, a disposição de enfrentar problemas que tinha o seu avô. Alguma energia fundamental se perdeu na passagem de gerações. Valores mudaram e, com isso, mundos ruíram. A beleza e a tristeza dos três romances de Zé Lins que contam a saga de Carlos Melo está na certeza que o tempo é irreversível, e até os mais sólidas casas de engenho um dia se desmancham no ar.
O que sempre me encantou nesses romances foi a relação tensa de identidade afetiva e diferença de visão de mundo entre avô e neto. Talvez porque sempre me visse dessa maneira quando pensava em meu avô. Nosso elo afetivo era imenso. Sempre conversavamos muito. Ele contava suas inúmeras histórias repetidamente. Para mim, o passado sempre foi algo fascinante, e talvez por isso, por essa curiosidade enorme sobre como as coisas tinham sido, sempre tenha gostado de conversar com pessoas mais velhas, sobretudo meus avós. A criança e o idoso, apesar da enorme distância etária que os separa, estão unidos pela posição marginal na qual se encontram em relação ao mundo sério dos adultos. Para criança, o mundo é todo novidade. Para o idoso, recontar a vida é uma terapia e uma necessidade. Dessas duas disposições - uma de saber tudo e a outra de querer recontar tudo - nasce a bela aliança entre avô e neto, repleta de cumplicidade e carinho.
Mas as distâncias também são enormes. Apesar de preservar tanto a memória de meu avô, sinto-me tão diferente dele. Carrego o seu nome, o que dá uma dramaticidade ainda maior para essa dialética entre semelhanças e diferenças. Às vezes penso o que o velho Alfredo pensaria do neto, do jovem Alfredo. Não há dúvidas que tive muito maiores chances na vida de estudar, de viajar, de escolher meus caminhos profissionais, de ler livros, de descobrir outros mundos, mas tais "melhoramentos" não me fizeram necessariamente "melhor" que meu avô. Sinto-me diante de meu avô, do jeito que Carlos Melo se sentia frente a Zé Paulino.
Meu avô tinha uma fé inquebrantável. Era um homem de fé, que dedicou sua vida à evangelização e à palavra de Deus. Sua vida era guiada por essa fé, e suas ações estavam todas baseadas nessa inabalável crença. De minha parte, sou mais dúvida que certeza. Mais hesitação do que ação. O questionamento sobre os fundamentos da ação e das crenças que guiam tal ação muitas vezes leva a um ceticismo que imobiliza qualquer ação. Os livros deveriam instruir o homem, tornar suas decisões mais bem informadas e assentadas. No entanto, muitas vezes sinto que a vida intelectual acaba deixando as pessoas em encruzilhadas das quais elas não conseguem sair. Justiça seja feita, talvez isso nada tenha a ver com a vida intelectual, mas com meu temperamento mais íntimo, com meu jeito de ser, com minhas incertezas metafísicas.
Meu avô estava bem à direita no espectro político. Tinha simpatia pela ditadura (hoje chamada de ditabranda) brasileira. Eu me considero uma pessoa politizada, com posições políticas mais à esquerda, sem nenhuma condescendência em relação a qualquer ditadura, seja de esquerda, seja de direita. Filho de uma classe média politizada, tenho plena consciência que os prinicipais problemas do Brasil só terão alguma solução no dia que associarmos o nosso destino ao dos inúmeros excluídos de nossa sociedade. No dia em que, finalmente, houver inclusão desse imenso contigente pobre à esfera da cidadania e do consumo, seremos um país minimamente decente. Toda essa consciência política, no entanto, não me levou a fazer nada, absolutamente nada, para mudar o status quo de meu país. Talvez o gesto mais "revolucionário" que tenha feito na minha vida tenha sido votar em João Paulo para prefeito em 2000. Meu avô, com toda direitice dele e limitações políticas, fez muito mais para ajudar aos pobres do que eu fiz. E fez da maneira mais produtiva possível: criando uma escola. Num mundo em que picaretas da fé ficam ricos às custas da exploração da pobreza e da ignorância, meu avô tirava dinheiro do bolso para ajudar as pessoas que precisavam, e fez todo esforço para criar essa escola primária, nos fundos da 3a Igreja Presbiteriana Independente do Recife, no bairro da Macaxeira. Depois, na segunda administração Jarbas, a escola foi encampada pela prefeitura do Recife, e hoje existe como Escola Municipal Nadir Colaço, na Avenida Norte. E continua fazendo uma imensa diferença na vida das crianças daquela comunidade.
Uma das coisas que mais me comovia no meu avô era a sua devoção à comunidade da Macaxeira. Inúmeras vezes fui com vovô a este bairro, com ele dirigindo seu Chevette velhinho, fazendo visitas ao povo mais humilde e simples de sua igreja. As pessoas serviam café, biscoito, bolo para meu avô, que comilão que era, aceitava tudo sem a menor cerimônia. Eu tinha nojo daqueles lanches. Achava tudo tão sujo e pobre. Hoje tenho vergonha desse sentimento. Meu avô me dava a oportunidade de conhecer o Brasil e eu ficava com medo de tomar água suja. Acho que nunca vi tantos pobres, negros, mestiços na minha vida como na minha infância. Não só ele visitava pessoas da comunidade, como as recebia na sua casa, inclusive na mesa do almoço. Posso dizer que conheci o Brasil na casa de meu avô. O terraço de sua casa era um espaço de co-existência de tantas classes sociais. Desncessário dizer que isso desapareceu . Depois tudo na minha vida se aburguesaria. Na escola, na faculdade, no condomínio, nas igrejas que frequentei, todos eram e são de classe média, todos são mais ou menos brancos, mais ou menos educados, mais ou menos burgueses. As igrejas de classe média que as pessoas da minha família vão são grupos de apoio terapêutico de classe média, onde as pessoas oram juntas para resolverem seus problemas pequeno-burgueses. O mais irônico de tudo - e isso eu só pude perceber mais tarde - que era o direitista de meu avô, sem nenhuma sofisticação teológica, o único da minha família que de fato tinha consciência da ética verdadeiramente revolucionária do cristianismo. Do cristianismo como amor ao próximo, traduzido em melhorar a vida do próximo, em trazer esperança não só de uma vida eterna, mas de uma vida digna na terra, pois o velho Alfredo sempre associou o trabalho evangelista à ação social. E essa é uma das mais belas contradições e ambiguidades que a vida já me mostrou.
Vejo meu avô como um gigante, apesar de ter estudado mais, viajado mais, lido mais que o velho Alfredo. Reconheço sem tristeza que ele é "melhor" do que eu. Pois isso me dará o metro certo para seguir a minha vida e talvez realizar aquilo que o velho Alfredo tenha feito tão bem na sua vida.
Amanhã fará dez anos que vovô morreu. A bem da verdade, não creio que tenha morrido. A morte é sempre um conceito tão problemático. Acredito que parte dele se foi. Outra parte continuará aqui, no coração daqueles que o amaram, e nas obras que deixou.
Quarta-feira, Novembro 05, 2008

Quarta-feira, Setembro 10, 2008

CHICAGO
No dia 19 de agosto iniciei minha nova vida aqui em Chicago. A cidade é bastante diferente de Berkeley, e tenho passado meus primeiros dias aqui no processo de adaptação à nova cidade. Terra de aficcionados por esportes (o número de pessoas vestindo camisas do Chicago Bulls, Chicago Cubs, Chicago Bears é imenso), um dos berços do blues e do jazz, capital afro-americana do Meio-Oeste americano, cidade conhecida pelo vento e pelo frio, Chicago é uma cidade fascinante. Além de todas essas características, é a sede política da Obamania. Barack Obama é da cidade (mora no bairro onde estou vivendo), e todos estão entusiasmados com a possibilidade de sua chegada à Casa Branca.
Bem, a partir de agora, será de Chicago que este blogue devagar e preguiçoso irá funcionar.
Quinta-feira, Julho 24, 2008
No ano passado, perto de terminar o doutorado, participei de alguns concursos para professor de literatura aqui nos EUA. Embora também tivesse pensado em prestar concursos no Brasil, essa possibilidade se mostrou difícil diante da demora do processo de revalidação do diploma de doutorado. Lembrando que eu nem sequer tinha o diploma de doutor, resolvi jogar todas minhas fichas no mercado de trabalho americano. (Eu ainda não tenho o diploma hoje, o que não é empecilho para ser contratado numa universidade norte-americana, desde que você mostre a viabilidade de doutorar-se em tempo hábil)
Para quem está acostumado com os concursos para professor no Brasil, o processo é bem diferente. Primeiro lugar, o processo é todo coordenado, ou melhor, facilitado pela Associação de Linguas Modernas (MLA). As universidades lançam os editais das vagas abertas numa lista patrocinada pelo MLA. Todos estudantes e possíveis candidatos a empregos têm assim uma lista unificada, com todas as vagas abertas para professor em todo o país. No geral, eles pedem os seguintes materiais: uma carta de apresentação, um CV, um artigo, um capítulo de tese, avaliações dos alunos para examinarem suas qualidades pedagógicas(nos EUA, a imensa maioria dos alunos de doutorado já ensinou alguma vez) e, claro, cartas de recomendações dos seus professores. O candidato manda esse material para as universidades cujas vagas lhe interessaram. Eu mandei pra 10 (o mercado de literatura brasileira é relativamente pequeno). Tem gente que manda pra 80.
Depois de alguns dias, se algum comitê de seleção for com sua cara, você recebe uma ligação ou e-mail, pedindo para agendar uma entrevista com você na cidade em que o MLA vai se reunir naquele ano. Cada ano é num lugar diferente. Ano passado, quando eu fui, a reunião aconteceu em Chicago. Próximo ano será em San Francisco. Nessa convenção do MLA é onde acontece toda a primeira fase do processo: as entrevistas. É um das situações mais esquisitas que já vivenciei: entrar no lobby do Shereaton em Chicago e ver aquela multidão de estudantes e críticos literários, vestidos de paletó e gravata, visivelmente desconfortáveis com os novos trajes, concentrando-se e ensaiando para as entrevistas. Nunca me senti tão puta na minha vida. Vestido bonitinho, pronto pra falar coisas que agradassem, e - o pior - fazendo entrevistas em quartos de hotéis!.O lobby do Shereaton em Chicago era a metoníma perfeita do capitalismo acadêmico americano. E nessas horas, eu pedia por um pouco da velha meritocracia brasileira.
Um candidato pode ter inúmeras entrevistas. Uma amiga teve 16, eu tive 4.
As entrevistas costumam ter de 20 a 30 minutos, e os comitês de seleção geralmente perguntam sobre seu projeto intelectual, e dependendo da instituição, sobre o seu estilo de ensino. É muito difícil saber se você se saiu bem ou mal na entrevista. Com o término dessa primeira fase, todo mundo vai pra casa. Essa convenção se dá entre Natal e ano novo, todo ano.
No final de dezembro, início de janeiro, aquelas instituições que lhe entrevistaram e gostaram de seu papo, ligam pra você e pedem para que você faça uma visita ao campus. Geralmente, as instituições recebem umas 100 candidaturas para cada vaga. Dessas, escolhe 10 para a entrevista na convenção, e dessas 10, escolhe 3 para a visita ao campus. Detalhe importante: por lei, a visita ao campus é paga integralmente pela instituição que convida o candidato (passagem, hospedagem, custos com alimentação).
Das quatro entrevistas que fiz, três me chamaram. E lá fui eu visitar os campi de três universidades americanas. Embora tenha esse nome agradável, de visita, a experiência também é bem estressante. Você está novamente com aquele paletó e gravata que você só usou uma vez na vida (na convenção!), tendo que jantar e almoçar com professores, ter reuniões com o chefe do departamento e com o decano, falando ad infinitum sobre seus projetos intelectuais e sobre possíveis aulas que poderia ensinar. Depois você almoça com os alunos de pós-graduação, gente como você, mas agora você não pode se comportar como um aluno de doutorado (por isso nada de olhar o decote das moças!), mas como um futuro professor daquela instituição. Ademais, ao final da visita você tem que dar uma palestra, geralmente sobre o assunto de sua tese. A palestra é o momento pra mostrar o seu vigor intelectual.
Finalmente, depois das visitas, as universidades que gostaram de você, fazem o convite para você ser professor daquela instituição. É o fim de uma corrida estressante que dura mais ou menos 5 meses - de início de setembro, quando os primeiros editais são lançados, até fevereiro, quando as universidades fazem os convites de emprego.
Ao longo de todo esse processo, conversei com amigos brasileiros. Quase todos estranharam bastante o processo. Como pode haver seleção sem provas de título, sem provas escritas, sem aquela imparcialidade típica dos concursos republicanos? As entrevistas, a palestra, não dariam espaço para elementos extra-meritocráticos de avaliação, como a beleza, a simpatia, o carisma?
Pensei bastante sobre esse processo americano e comparei com o processo brasileiro. E, por incrível que pareça, cheguei à conclusão que nosso concurso republicano não necessariamente favorece a diversidade de formação do corpo docente nem muito menos é acessível para a maioria dos estudantes. E que o sistema americano, em certa medida, é mais eficiente nesses quesitos.
Algo que me chama a atenção é a incrível endogamia intelectual das universidades brasileiras, ou no popular, as panelinhas.
Vou falar aqui de duas universidades brasileiras: A UFPE, onde me formei em ciências sociais, minha alma mater e a USP, reconhecidamente a melhor universidade do Brasil. Todas elas fazem concursos públicos para preencher as vagas docentes.
Na UFPE, o modelo é o seguinte: o aluno sai da graduação, faz mestrado no programa de sociologia da universidade e depois é mandado para fora, para fazer doutorado, geralmente na França ou Inglaterra. Na volta, a chance é bem grande de se tornar professor da universidade. Dos 19 professores do departamento de sociologia, 15 fizeram graduação na UFPE, e 3, apenas 3, isto é, 15% dos professores, não fizeram nem graduação nem pós-graduação na UFPE. O concurso é aberto pra todos os brasileiros que preencham determinados requisitos. Mas um corpo docente que tem 80% de ex-alunos diz bastante sobre a diversidade de formação dos professores e sobre o viés do concurso. Na área de literatura, onde eu provavelmente poderia fazer um concurso, há 8 professores que ensinam teoria literária. Só dois não fizeram mestrado na Universidade.
Na USP, a coisa é ainda mais endogâmica. Eles nem sequer mandam os alunos pra fazer doutorado fora. A grande maioria faz doutorado lá mesmo. E quando eu digo grande maioria, não estou fazendo uso de hipérbole. 85% dos professores de sociologia da USP fizeram doutorado na própria universidade (e boa parte fez graduação e mestrado). Isso mesmo. De 32 professores, apenas 5 não tem diploma de doutorado da USP. Se você é sociólogo, e acalenta o sonho de ser professor no departamento onde Florestan Fernandes fez história, eu aconselho que você faça doutorado na USP, pois suas chances serão bem maiores. No Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada, de vinte professores, dezesseis são doutores pela USP, isto é, 80%. E no programa de literatura brasileira da USP , todos os 14 professores foram doutores pela USP.
Imaginem como devem ser esses concursos, em que ex-alunos e professores se encontram. Em que ex-alunos sabem exatamente que tipo de abordagem deve fazer em relação a tal assunto, que tipo de leitura de Machado é a mais apreciada pela banca, que temas são tabus para tal e tal professores.
É a prova que concurso público, "cego e impessoal", não evita panelinhas acadêmicas. Claro que não há uma cota pra uspianos, mas se você é uspiano e vai fazer um concurso para entrar na USP, suas chances são bem maiores do aquele cara da UFMA. A resposta de muitos uspianos seria dizer que a USP produz os melhores doutores de sociologia do Brasil. Natural que passem nos concursos da universidade. Caramba, e o IUPERJ? E a UFRJ? E a UFMG? e a Unicamp (que tem UM professor la)? A própria crença que uma universidade produz os melhores, e os melhores devem ser professores daquela universidade, mostra como o processo de reprodução institucional não deixa de lançar mão da auto-congratulação.
Nos EUA, no departamento onde eu estudei, em Berkeley, nenhum, absolutamente nenhum professor era formado na graduação, no mestrado ou no doutorado por Berkeley. Isso é quase um ponto de honra para a grande parte dos departamentos das universidades americanas. Sobre os problemas que a endogamia intelectual pode causar, não vou comentar. A biologia pode fazer isso melhor do que eu.
Isso quer dizer que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil? Não. Mas eu acho que o modelo americano tem algumas virtudes que merecem ser discutidas. Uma delas, por exemplo, é a coordenação do processo de seleção: entrando numa homepage você sabe quais são os editais abertos em todas universidades do país. Outra virtude é centralizar a primeira fase do processo numa cidade, onde todos vêm fazer entrevistas. Em vez de ir para quatro cidades diferentes prestar concursos, pagando passagens, hospedagem, comida, nas quatro cidades, basta ir a apenas um lugar. Qual é a maior consequência disso? A diversidade de pessoas que irão se candidatar a esse posto, multiplica. Se os concursos fossem atomizados, como é no Brasil, eu faria apenas aqueles que estivessem na Califórnia, perto de onde eu morava. Iria gastar uma grana preta nesses lugares, mas iria economizar na viagem. Não iria para lugares da Costa Leste, por exemplo. Com a unificação da primeira fase numa cidade, tudo facilita. Eu posso ser entrevistado por Universidades do Alaska, da Flórida, de Porto Rico, tudo isso numa cidade. Se eles gostarem de mim, eles pagam a minha despesa para visita, e desse modo, garantem um pool mais diverso de candidatos.
Claro que essas coisas não podem ser aplicadas assim, sem mais nem menos, afinal as universidades não têm dinheiro, e não dá para comparar nossas universidades com o sistema universitário americano. Mas acho que é preciso pensar seriamente em modos de democratizar o acesso de brasileiros das várias regiões do país para os concursos, e estimular o genuíno intercâmbio intelectual de várias tradições e escolas do pensamento. Creio que o modelo brasileiro, com sua reprodução muitas vezes auto-congrulatória, evidenciada por uma endogamia acadêmica, que em alguns casos, chega a mais de 80% do corpo docente, precisa ser questionado.
Isso faz sentido, ou depois de passar pelo moinho capitalista do mercado gringo, voltei muito americanizado?
LINKS:
Corpo docente de sociologia UFPE
Corpo docente de sociologia USP
Corpo docente de Teoria Literária UFPE
Corpo docente de Teoria Literária USP
Corpo docente do Departamento de Espanhol e Portugues de Berkeley
Sexta-feira, Julho 18, 2008
Estou fazendo parte agora de um blogue coletivo chamado Amálgama. Deverei escrever pra lá duas vezes por semana. Apareçam por lá, façam uma visitinha.
Quarta-feira, Maio 21, 2008
(Pequena parte da tese, em que trato do romance de Clarice como romance-arquivo da literatura brasileira, que crítica uma série de disposições do escritor brasileiro em relação ao povo e a missão de representá-lo. Como não poderia faltar, o romance também esboça uma crítica à própria prosa existencialista, de cunho universalista, de Lispector)
A ficção inicial de Clarice é conhecida por uma verve existencialista, que tenta problematizar aquilo que se chama de “condição humana”. Sua temática é marcada por questões da auto-descoberta, geralmente provocada por um contato com a alteridade (pode ser uma barata, como no caso de Paixão segundo GH, ou um cego mascando chiclete, como no caso do conto “Amor” de Laços de família)
No romance A hora da estrela, constataremos que a retórica universalizante dos romances existencialistas também é colocada em xeque.
Em alguns momentos do romance, o narrador procura uma identificação com a personagem Macabéa. Sabe que a distância entre eles é enorme, mas ainda assim almeja encontrar pontos dessa “condição humana” que hipoteticamente une todos os seres humanos na sua crise e nos seus problemas.
Quero neste instante falar da nordestina. É o seguinte: ela como uma cadela vadia era teleguiada exclusivamente por si mesma. Pois reduzira-se a si. Também eu, de fracasso em fracasso, me reduzi a mim mas pelo menos quero encontrar o mundo e seu Deus (26).
Teria ela a sensação de que vivia para nada? Nem posso saber, mas acho que não. Só uma vez se fez uma trágica pergunta: quem sou eu? Assustou-se tanto que parou completamente de pensar. Mas eu, que não chego a ser ela, sinto que vivo para nada.(40).
Nunca pensara “eu sou eu”. Acho que julgava não ter direito. Era um acaso. Um feto jogado na lata de lixo embrulhado em um jornal. Há milhares como ela? Sim, e que são apenas um acaso. Pensando bem: quem não é um acaso na vida? Quanto a mim, só me livro de ser um acaso porque escrevo, o que é um ato que é um fato.(45).
Os trechos são significativos, pois se referem a momentos em que o narrador está nivelando-se a Macabéa. A principal diferença é que sempre que ele se iguala à Macabéa, o faz de maneira figurativa, metafórica, enquanto uma linguagem mais literal é utilizada para descrever a situação de Macabéa. No primeiro trecho, o narrador “se reduziu a si mesmo”, mas “pelo menos” quer descobrir o mundo. Macabéa se reduziu a si mesma e se tornou uma autômata. Para referir-se a si mesmo, o emprego da linguagem figurada é evidente: serve para simbolizar uma depuração interior, movida pela busca incessante de sentido da vida e do mundo. No segundo caso, Macabéa é de fato uma sem-vida que não pensa ou reflete sobre sua condição. Da mesma forma pode ser analisada a comparação do “acaso” que tanto serve para definir a vida de Macabéa como a do narrador. Macabéa de fato é um acaso, pois poderia não existir: é substituível na engrenagem social, já que há milhares como ela nas cidades brasileiras O narrador, ao contrário, não se considera um acaso exatamente porque é escritor. Se “todos” são um acaso, uns são “menos” acasos do que outros, e no caso de Rodrigo SM, o que o salva do acaso é a sua profissão. Ao contrário de Macabéa, ele não é substituível. Pelo contrário, não é o escritor (o letrado de maneira geral) um demiurgo semiótico? Não é o escritor aquele que ordena eventos e cria sentido onde antes havia caos? Não é ele que dá sentido e forma ao contigente (acaso)? Na tentativa de se igualar, a distância entre narrador e personagem parece crescer ainda mais. Embora ele acha que não viva para nada, tem uma profissão que é toda ela cheia de propósitos simbólicos, o que nos faz pensar que o "viver para nada" de Rodrigo está no nível metafórico, enquanto Macabéa tem medo de pensar sobre isso. Por fim, no final do romance, mais uma vez temos o choque entre as linguagens metafóricas e literais: O narrador empatiza com a morte de Macabéa, e diz também morrer com ela. A morte dela, claro, é literal, enquanto a dele, é simbólica.
A ficção de Lispector, sobretudo a da primeira fase, é marcada por uma transbordante riqueza metafórica. São textos nos quais as ações são mínimas, e por isso dependem tanto da mobilização de outros campos semânticos: para emprestar densidade aquele mínimo de ação descrito na ficção. O exemplo paradigmático seria A Paixão segundo GH. Em tal romance, a narradora, depois de despedir a empregada, resolve fazer uma limpeza no cômodo que pertencia à empregada. Nessa limpeza, depara-se com uma barata moribunda. E a partir dessa visão epifânica, o romance se desenvolve. O romance é sobre uma personagem-narradora que a partir dessa experiência de contato íntimo como uma barata moribunda, examina-se e redefine-se. Tudo isso acontece por meio da linguagem, a partir das inúmeras camadas de significado que ela consegue criar a partir daquele singelo evento. E o romance consegue abarcar essas dimensões porque é uma ficção ancorada na metáfora.
Acabamos de analisar alguns casos
Creio que a discussão desse abismo entre narrador e personagem pode ser beneficiada se levarmos em consideração uma interessante reflexão do sociólogo Pierre Bourdieu sobre a “universalidade” de certas experiências e certos discursos. Bourdieu afirma que a Crítica do Juízo de Kant seria um modelo de análise estética universal se por acaso as condições econômicas e sociais que possibilitavam uma elite fruir daquela análise também fosse universal:
Estou pronto a admitir que a estética de Kant seja verdadeira, mas apenas a título de fenomenologia da experiência estética de todos os homens e mulheres que são produtos da skholé. . . . A condição da universalização real desta possibilidade universal é, portanto, a universalização real das condições econômicas e sociais, quer dizer, da skholé, cuja monopolização por alguns confere a esses happy few o monopólio do universal (160).
Algo semelhante pode ser dito da literatura existencialista de Clarice Lispector, sempre tocada pela linguagem figurativa e metafórica. A condição “humana” dessa experiência, referida por uma linguagem específica, só será de fato humana – isto é, universal – quando as condições sócio-econômicas para essa experiência também sejam universalizadas. O abismo entre o narrador e Macabea, a descontinuidade entre suas experiências, é o responsável pela mudança abrupta do tipo de linguagem empregado para descrever os seus respectivos dilemas. Com o perdão da redundância de palavras, representa a fissura no universalismo da literatura universal no Brasil.